“Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, em todo lugar, que se arrependam.” (At 17.30).
EXPOSIÇÃO E
EXEGESE DO TEXTO
O discurso de Paulo no Areópago representa um dos momentos
mais marcantes da proclamação do evangelho ao mundo intelectual da antiguidade.
Cercado por filósofos epicureus e estoicos, Paulo inicia sua mensagem
observando um altar dedicado "ao deus desconhecido" (Atos 17.23).
Aquilo que para os atenienses era um símbolo de incerteza religiosa tornou-se,
nas mãos do apóstolo, uma ponte para apresentar o Deus verdadeiro, Criador do
céu e da terra.
Ao chegar ao versículo 30, Paulo faz uma mudança decisiva em
seu argumento. Depois de revelar quem Deus é — o Criador, Sustentador e Senhor
soberano da história — ele apresenta a resposta que Deus exige da humanidade: o
arrependimento.
A expressão "não levou Deus em conta os tempos da
ignorância" não significa que Deus aprovava a idolatria nem que
ignorava o pecado das nações. O verbo grego hyperidōn transmite a ideia
de Deus ter suportado, tolerado ou passado por alto aquele período sem executar
imediatamente seu juízo definitivo. Em sua longanimidade, Deus permitiu que as
nações seguissem seus próprios caminhos (cf. Atos 14.16), enquanto conduzia a
história ao momento culminante da revelação em Cristo.
Essa "ignorância" não era mera falta de informação
intelectual, mas desconhecimento espiritual acerca do verdadeiro Deus. Os
filósofos possuíam vasto conhecimento humano, porém permaneciam distantes do
conhecimento salvador. O problema da humanidade nunca foi apenas ausência de
informação, mas a condição pecaminosa que obscurece o entendimento e afasta o
coração de Deus.
A partir da vinda de Cristo, porém, uma nova etapa da
história da redenção foi inaugurada. Por isso Paulo afirma: "agora".
Esse termo marca a chegada da plena revelação divina. Deus já não é o
"desconhecido". Ele se revelou definitivamente na pessoa de Jesus
Cristo, cuja morte e ressurreição manifestam seu amor, sua justiça e seu
propósito de salvação.
Em seguida, Paulo declara que Deus "notifica aos
homens que todos, em toda parte, se arrependam". O verbo empregado
possui força de mandamento. Não se trata de uma sugestão religiosa nem de uma
filosofia entre tantas outras. É uma convocação divina dirigida a toda a
humanidade.
O arrependimento (metanoia) significa uma
transformação profunda da mente, das convicções, da vontade e do coração. Não
consiste apenas em sentir remorso pelos pecados, mas em abandonar a velha
direção da vida para voltar-se inteiramente para Deus pela fé em Cristo.
Observe ainda a universalidade da mensagem. Paulo utiliza
três expressões que eliminam qualquer distinção:
- todos;
- em
toda parte;
- arrependam-se.
O evangelho não pertence a uma cultura, a uma nação ou a um
grupo específico. A ordem de Deus alcança reis, filósofos, trabalhadores,
religiosos e pessoas comuns. Diante da cruz, todos necessitam igualmente da
graça salvadora.
VERDADES ESPIRITUAIS
- Deus
não permanece oculto; Ele decidiu revelar-se plenamente em Jesus Cristo.
- A
paciência de Deus demonstra sua misericórdia, mas não elimina sua justiça.
- O
conhecimento intelectual não substitui o conhecimento salvador de Cristo.
- O
arrependimento é a resposta indispensável à revelação do evangelho.
- A
mensagem de Cristo é universal e continua sendo proclamada a todos os
povos.
APLICAÇÃO PESSOAL
Vivemos em uma sociedade semelhante à Atenas do primeiro
século. Nunca houve tanto acesso ao conhecimento, à tecnologia e às diferentes
correntes de pensamento. Entretanto, muitas pessoas continuam procurando
respostas espirituais em filosofias, ideologias, religiosidade superficial ou
no próprio sucesso pessoal. O "deus desconhecido" continua presente,
apenas com novos nomes.
O evangelho nos lembra que Deus já não permanece escondido.
Em Jesus Cristo, Ele revelou seu caráter, sua graça e seu plano de salvação. A
maior necessidade do ser humano não é descobrir uma nova filosofia, mas
conhecer pessoalmente o Salvador.
O chamado ao arrependimento também permanece atual para os
cristãos. Arrepender-se não é apenas o primeiro passo da conversão; é um estilo
de vida. Todos os dias somos convidados a abandonar atitudes, pensamentos e
prioridades que competem com o senhorio de Cristo.
Além disso, Paulo nos ensina uma importante lição para a
evangelização. Antes de confrontar os filósofos, ele compreendeu sua cultura,
identificou pontos de contato e, com sabedoria, conduziu seus ouvintes à
verdade do evangelho. O cristão também é chamado a dialogar com respeito, sem
abrir mão da exclusividade de Cristo como único Salvador.
PARA REFLETIR
- Tenho
buscado respostas em minha própria sabedoria ou na revelação de Deus em
Cristo?
- Existe
alguma área da minha vida que ainda necessita de verdadeiro
arrependimento?
- Tenho
anunciado Cristo de maneira sábia, amorosa e fiel às pessoas ao meu redor?
- Minha
confiança está nas ideias humanas ou na verdade do evangelho?
ORAÇÃO
Senhor Deus, agradeço porque não permaneceste oculto, mas Te
revelaste plenamente em Teu Filho Jesus Cristo. Obrigado porque, em Tua
paciência e misericórdia, me chamaste ao arrependimento e me concedeste a
salvação pela graça. Examina meu coração e transforma tudo aquilo que ainda
precisa ser submetido ao Teu senhorio. Dá-me sabedoria para anunciar Cristo com
amor, coragem e fidelidade, para que outros também conheçam o Deus que antes
lhes era desconhecido. Em nome de Jesus. Amém.
CRISTO ENTRE OS
FILÓSOFOS: O DEUS DESCONHECIDO SE REVELA
(SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO)
Nesta lição, encontramos o apóstolo Paulo em contato direto
com a cultura helenística. Ao chegar em Atenas, cidade conhecida como o berço
cultural e filosófico do mundo antigo, o apóstolo depara-se com pessoas que,
apesar de possuírem alto nível intelectual, encontravam-se entregues à
idolatria. O estado da cidade comoveu o coração de Paulo. Ao observar os
detalhes das cidades gregas, nota-se que eram configuradas e adaptadas para
atender ao comércio, à cultura e à religiosidade tradicional herdada de seus ancestrais.
O Dicionário da Vida Diária na Antiguidade & Pós-Bíblica de A a Z (CPAD)
apresenta maiores detalhes dessa configuração: “A proliferação de muitas poleis
na Grécia com limitados bolsões de terras agrícolas, criaram assentamentos
ferozmente independentes, cada um dedicado à sua divindade patronal e tradições
ancestrais. Algumas cidades como Atenas e Corinto, foram abençoadas com um
ponto alto de terra, a acrópole da cidade. Todos tinham ágoras [praças] para
atividades comerciais e públicas, incluindo uma prytaneion (Pritaneu)
ou prefeitura e um bouleuterion, ou casa para o conselho eleito.
Todas as cidades tinham muros, com exceção de Esparta, que se valia de seu
formidável exército. Quase todas as cidades tinham estoas ou pórticos
colunados, teatros em encostas e ginásios para exercícios e palestras” (2020,
p.470).
É nesse cenário marcado pela filosofia e religiosidade
mitológica e obscura, cega pela prostituição e imoralidade, que Paulo inseriu a
pregação do Evangelho. De forma estratégica, ele utiliza o altar reservado ao
“Deus desconhecido” para anunciar que há um Deus verdadeiro, criador dos Céus e
da Terra, que enviou Seu Filho a este mundo, não para condená-lo, mas para
mostrar-lhe o caminho do arrependimento para salvação (At 17.30). O exemplo de
Paulo ensina que a mensagem do Evangelho é, de fato, transcultural, não está
limitada às barreiras impostas pelas culturas, costumes ou tradições étnicas de
um povo específico. Sempre haverá espaço na sociedade para a pregação da
verdade que liberta e transforma o ser humano em nova criatura. Isso não
significa que a igreja tenha de negociar os princípios doutrinários elencados
nas Sagradas Escrituras. Mas Deus, por seu amor e graça, soube utilizar seu
servo, o apóstolo Paulo, dentro da cultura de seus dias e por meio do
conhecimento que possuía, para alcançar vários corações que entenderam a
mensagem do Evangelho e receberam Jesus como Salvador. Este mesmo Deus, a
partir das nossas habilidades e conhecimentos seculares, pode também nos levar
a lugares específicos para transmitirmos, seja pelo diálogo com a cultura local
ou mesmo pelo nosso testemunho cristão, muitas vidas a Cristo (Mt 28.19,20).






